Posted by: Helena Costa on: 24 Fevereiro 2009
Os últimos raios de sol entravam pela fresta da janela, iluminando as teclas do piano, consumido pelos anos. Notas silenciosas dançavam pelo compartimento, réstias da melodia que outrora enchia cada canto da casa. O pó cobria o chão e as mesas, os móveis e os sofás. Mas não o piano. Brilhava como se fosse novo. Como se alguém o tivesse acabado de tocar. Como se alguém ainda o tocasse. E os passos do passado ecoavam pela sala, acariciando as fotografias, as pautas musicais, as memórias, numa sinfonia fúnebre. Cada objecto, cada pormenor posicionado como se, subitamente, todo o movimento, toda a alegria, toda a vida daquela casa se tivesse esvaído para o desconhecido. Um lápis sobre uma pauta musical incompleta. Uma garrafa de vinho aberta. Uma cadeira recuada. Uma escova sobre a mesa. E o tempo passa, levando com ele o passado, o presente, o futuro. Flores morrem. Histórias acabam. Músicas desaparecem. As famílias transformam-se em retratos. Os objectos em relíquias. As fotografias em testemunhos. Os sorrisos em memórias. O piano em nostalgia.
Estou a reler a Insustentável Leveza do Ser de Milan Kundera e A Origem das Espécies de Charles Darwin.
8 Março 2009 às 6:33 pm
Excelente!
O que estás a ler, Helena?